Coluna do Quadrelli: Por que alguns carros puxam para um lado? Como resolver?
O 54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder. José Carlos Quadrelli: Este fenômeno tem várias possíveis causas e é passível de resolução. Esta condição é conhecida como tendência direcional e faz com que um veículo tenda a se desviar para um lado quando ele está rodando em linha reta, obrigando o motorista a puxar o […]
por José Carlos Quadrelli em 04/11/2025 - Atualizado em 04/11/2025
O 54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder.
José Carlos Quadrelli: Este fenômeno tem várias possíveis causas e é passível de resolução.
Esta condição é conhecida como tendência direcional e faz com que um veículo tenda a se desviar para um lado quando ele está rodando em linha reta, obrigando o motorista a puxar o volante para o lado oposto para manter a trajetória. Ele pode ter várias causas, nem sempre relacionadas à qualidade dos pneus, e que podem ser resolvidas cuidando da manutenção como podemos ver na lista a seguir:
1. Desgaste excessivo de um dos pneus: um pneu muito mais gasto ou com desgaste irregular excessivo de um lado pode gerar essa tendência. Estas condições podem ser provenientes de desalinhamento ou calibragem inadequada;
2. Calibragem desigual: uma diferença significativa de pressões de inflação de um lado pode levar o veículo a puxar. Um pneu pode ter furado e perdido pressão antes que se tenha notado;
3. Desalinhamento: um impacto pode ter desalinhado a geometria e a tendência pode ser notada mesmo antes de aparecerem desgastes irregulares;
4. Folgas na suspensão: folgas nos eixos, rolamentos e terminais, além do estado de amortecedores e molas podem contribuir para esse efeito.
Descartadas as hipóteses acima, a causa pode estar nos pneus. Na maioria das vezes isso ocorre devido a uma característica construtiva de todos os pneus denominada conicidade. Pequenas diferenças dimensionais entre os dois lados do pneu (por ligeira descentralização de uma cinta, ou por um componente mais pesado de um lado, por exemplo) fazem com que seja gerada uma força lateral que desvia o pneu para um lado quando ele tenta andar em linha reta, semelhante ao caso de um cone girando, daí o nome. Na grande maioria dos pneus essa força é pequena e acaba sendo absorvida pela suspensão do veículo através de sua geometria ou até pela inclinação da pista. Em outros casos, quando é maior, deve-se efetuar alguma intervenção nos pneus para eliminar seus efeitos. O problema todo se resume a equilibrar as forças laterais devido às conicidades dos pneus montados no mesmo eixo.
Se a força gerada pela conicidade de um pneu tende a puxar o veículo no sentido de seu lado externo, vamos dizer que ela é positiva, e negativa se no sentido oposto. Assim, um pneu montado na dianteira direita de um veículo que, ao girar, puxa o veículo para a direita, (conicidade positiva) ele irá puxar o veículo para a esquerda se transferido para o lado esquerdo (sem desmontar da roda). Dessa forma, se os dois pneus num eixo possuem conicidade positiva da mesma ordem de grandeza, as forças laterais se anularão e o veículo não terá mais tendência direcional. O inverso também é verdadeiro.
Uma forma de resolver esse caso quando os pneus são simétricos (sem lado de montagem ou sentido de giro), é o de desmontar o pneu da roda e inverter o mesmo (lado externo passa para o lado interno). Com isso, uma conicidade positiva vira negativa. Isso pode tanto resolver o caso como pode gerar uma tendência direcional para o lado oposto, dependendo da força gerada pela conicidade do pneu par. Se isso ocorrer, a conicidade do pneu que invertemos é excessiva e ele pode tanto ser passado para o eixo traseiro, colocado no estepe (se possível já que atualmente muitos veículos possuem estepes de tamanho diferente ou estepes temporários) ou simplesmente trocado. Agora, se após a inversão o veículo continua a puxar para o mesmo lado, descobrimos que é o pneu do lado oposto que está causando a tendência. Se a troca dos dois pneus entre si não resolver, o pneu oposto terá de ser trocado (ou passado para a traseira ou estepe, se possível).
E no caso de pneus assimétricos? Estes pneus podem ser trocados de lado, mas não podem ser invertidos na roda já que possuem lado de montagem. O que se pode fazer é adotar o mesmo procedimento do pneu simétrico apenas para identificar o pneu causador da tendência direcional. Uma vez identificado, ele terá de ser trocado (ou passado para a traseira ou estepe).
Ainda existe o caso dos pneus unidirecionais, que possuem sentido de giro e não podem ser invertidos na roda a não ser que passassem para o lado oposto do veículo após a inversão. Como o pneu oposto também teria de ser invertido antes de trocar de lado, essa alteração não terá efeito prático já que somente irá inverter a tendência direcional de um lado para o outro. Nestes casos, apenas se pode tentar passar um pneu por vez para o eixo traseiro ou trocar com o estepe, se possível.
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* Nascido em 20/11/57 em São Paulo-SP, formou-se em engenharia mecânica na Poli/USP em 1981 e obteve mestrado na mesma área pelo Universidade de Minnesota, nos EUA, em 1985. Trabalhou inicialmente na área de tubulações industriais pela Promon Engenharia e depois como sócio fundador da Frontenge Engenharia, empresa de consultoria em projeto industrial. Em 1994 foi contratado pela Bridgestone do Brasil onde exerceu os cargos de engenheiro de campo depois gerente e gerente geral de engenharia de vendas até 2020 quando se aposentou e hoje atua como consultor. É autor de 2 livros, um deles sobre pneus. É casado e tem uma filha.
O Pneu de Automóvel: Um Guia Básico
– As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do 54PSI –