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Coluna do Quadrelli: A banda de rodagem de um pneu pode “esfarelar”?

54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder. José Carlos Quadrelli: Depende o que se define por “esfarelar”. Vamos procurar entender melhor este assunto. E o que quer dizer “esfarelar”? O dicionário Aurélio define o termo como sendo “converter em farelo, reduzir a migalhas”. Com isso entende-se que a banda de rodagem (área do pneu que […]

por José Carlos Quadrelli em 23/06/2025 - Atualizado em 03/11/2025

54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder.

José Carlos Quadrelli: Depende o que se define por “esfarelar”. Vamos procurar entender melhor este assunto.

E o que quer dizer “esfarelar”? O dicionário Aurélio define o termo como sendo “converter em farelo, reduzir a migalhas”. Com isso entende-se que a banda de rodagem (área do pneu que entra em contato com o piso) acaba se soltando em escamas, pedaços ou até em pó de borracha mesmo. Estes casos não são tão comuns, mas pode ser que o termo esteja sendo usado pelos motoristas para representar outros fenômenos que ocorrem com seus pneus de forma mais enfática. E quais seriam esses? A seguir abordaremos alguns exemplos e suas causas:

  1. Picotamento (chipping, em inglês): neste caso pequenos pedaços da banda de rodagem se desprendem, normalmente em toda a circunferência. Pode ocorrer por aplicação inadequada do pneu (usar pneus de uso normal em aplicações fora de estrada mais severas, por exemplo); direção abusiva (“cantar” pneus ou passar por cima de obstáculos em velocidade são exemplos); dano por agente químico (uso de materiais de limpeza inadequados como produtos à base de petróleo ou solventes); ou ainda, embora seja mais raro, pode ser devido a uma falha de fabricação do composto de borracha da banda de rodagem (por uso de material incorreto ou contaminação, por exemplo). Se os danos forem de pequena monta, o pneu pode continuar a ser usado, mas se os danos aumentarem o pneu deve ser retirado de serviço;
  2. Arrancamento (chunking, em inglês): aqui pedaços maiores se desprendem da banda de rodagem e as causas são as mesmas do picotamento só que em maior grau, ou seja, em condições de maior severidade de piso, maior velocidade, maior abuso etc. Nestes casos é obrigatório substituir o pneu já que os danos acabam alterando o comportamento dinâmico do pneu;
  3. Delaminação (flaking, em inglês): já nesta condição camadas (ou lâminas) da banda de rodagem se desprendem total ou parcialmente e as superfícies inferiores são lisas, diferentemente dos casos anteriores. Isso normalmente ocorre por falta de aderência entre as camadas ou por falta de cura ou contaminação dos compostos de borracha. É normal tais pneus serem substituídos em garantia;
  4. Desgaste rápido: neste caso a aparência da banda de rodagem é normal, sem desgaste irregular, mas ela se desgasta mais rapidamente que o esperado levando alguns usuários a usar o termo “esfarelando” para se referir a isso sem que ocorra o aparecimento de pó de borracha propriamente dito. Estes casos podem ocorrer pelo uso inadequado do pneu em condições mais severas como nos casos 1 e 2 acima, apenas que o composto tem um comportamento diferente daquele caso, não se desprendendo em pedaços maiores. Também pode ocorrer por direção abusiva (arrancadas, patinagem, excesso de velocidade), falta de rodízio e sobrecarga.

Todos os casos acima (menos o 3) podem ocorrer pela aplicação inadequada de um pneu num mercado diferente daqueles para os quais o veículo foi destinado inicialmente (em áreas de pisos mais abrasivos ou mais montanhosas, por exemplo). O excelente artigo do nosso colega Carlos Barcha, de janeiro de 2021 neste site, fornece vários exemplos de pneus que sofreram reclamações por serem aplicados em mercados ou condições diferentes dos quais foram projetados. É comum nesses casos que as montadoras de veículos acabem por responsabilizar a qualidade dos pneus em vez de assumirem a culpa pela adoção de um pneu de especificação inadequada para determinado mercado ou veículo. Muitas vezes o consumidor acaba se frustrando já que ele fica no meio desse jogo de empurra entre montadora e fabricante de pneu sem conseguir uma solução adequada.

Concluindo, se os danos causados à banda de rodagem forem leves, o pneu pode continuar a ser usado (contanto que se aumente os cuidados de manutenção e direção), mas se forem aumentando ou são mais acentuados é recomendável remover o pneu de uso e substituir por outro modelo mais adequado para as condições de operação, se possível, já que a degradação da banda de rodagem irá afetar o seu desempenho, levando ao desgaste irregular, desbalanceamento e eventual desagregação da banda de rodagem.

O Pneu de Automóvel: Um Guia Básico

– As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do 54PSI –