EXCLUSIVO: Rodrigo Navarro quer protagonismo da ANIP na formulação de políticas públicas para o setor de pneus
O setor de pneus no Brasil vive um momento de forte pressão, com os desafios impostos pela valorização do dólar, pela alta carga tributária e pelo avanço das importações, que ameaçam a competitividade da indústria nacional. É nesse cenário complexo que Rodrigo Navarro assume a presidência executiva da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP). […]
por Lara Roibone em 29/07/2025 - Atualizado em 29/07/2025
O setor de pneus no Brasil vive um momento de forte pressão, com os desafios impostos pela valorização do dólar, pela alta carga tributária e pelo avanço das importações, que ameaçam a competitividade da indústria nacional. É nesse cenário complexo que Rodrigo Navarro assume a presidência executiva da Associação Nacional da Indústria de Pneumáticos (ANIP).
Em entrevista exclusiva ao 54PSI, ele fala sobre os planos para fortalecer o papel institucional da entidade, a defesa pela manutenção da tarifa de importação de 25% para pneus de passeio por mais um ano e os riscos que a possível sobretaxa de 50% pelos Estados Unidos representa para as exportações brasileiras.
54PSI: O senhor vem de um setor consolidado como o de materiais de construção. Quais paralelos enxerga entre esse setor e a indústria de pneus? O que o motivou a entrar para o setor de pneumáticos?
Tanto o setor de construção quanto o setor de pneumáticos são, sem sombra de dúvidas, estratégicos para a economia brasileira. Ambos os segmentos impulsionam o desenvolvimento socioeconômico do País a partir da atração de novos investimentos e da geração de emprego e renda, movimentando um amplo ecossistema.
Também há em ambos os setores uma grande ligação com o varejo, a necessidade de os produtos estarem em conformidade com normas técnicas, para garantir segurança aos consumidores, e muito relacionamento com autoridades de governo em nível federal, estadual e municipal.
Esses paralelos facilitam a identificação dos desafios. Muitas iniciativas que tive a oportunidade de iniciar na ABRAMAT pretendo ampliar na ANIP, além de dar início a novos projetos em prol especificamente do setor, empresas e sociedade, com apoio de nosso Conselho.
A mudança para o setor de pneumáticos se apresenta como um novo e importante desafio em minha carreira. Estamos falando do maior polo de produção de pneus da América Latina e o sétimo do mundo. São 11 empresas e 21 fábricas em 7 estados. O setor mantém 32 mil empregos diretos e 500 mil indiretos.
Além disso, a ANIP tem forte atuação ambiental na logística reversa de pneus inservíveis por meio da Reciclanip, entidade considerada referência nesse trabalho, sendo a maior da América Latina e a terceira maior do mundo no segmento de pneus.
54PSI: A indústria nacional de pneumáticos tem enfrentado pressões significativas, como a concorrência com importados, aumento de custos logísticos e variações cambiais. Qual é o seu diagnóstico inicial do setor e quais pontos considera prioritários para garantir a competitividade das fabricantes instaladas no Brasil?
A indústria de pneus instalada no Brasil enfrenta há anos um cenário bastante desafiador. Por um lado, temos uma competição muitas vezes injusta com relação à importação, com pneus chegando ao país com preços abaixo do custo de produção industrial. Isso já foi atestado inclusive pelo Governo Federal, que concedeu direitos antidumping para alguns produtos de origens específicas.
Por outro lado, o setor não passa ileso dos efeitos do aumento de custos logísticos e variações cambiais, que podem levar ao aumento dos preços dos produtos e afetar a competitividade das empresas.
Há também questões ambientais, afinal todos são responsáveis pela economia circular desses produtos, e preocupação com a conformidade técnica e fiscal. Todos esses pontos precisam de atenção de forma contínua.
54PSI: Como a Anip enxerga o papel do varejo na valorização da produção nacional de pneus?
Reconhecemos o setor de varejo como um elo fundamental na valorização da produção nacional de pneus. O mercado de reposição é altamente estratégico para a indústria de pneus instalada no Brasil como um todo.
Atualmente esse mercado representa 66% das vendas nacionais, contribuindo diretamente para o fortalecimento das fabricantes que produzem pneus no país.
Cabe ressaltar que a indústria brasileira se destaca pela diversidade de modelos, além de qualidade, durabilidade e tecnologia embarcada. Os pneus produzidos nacionalmente passam por rigorosos testes e contam com a fiscalização e certificação de qualidade e segurança do Inmetro – Instituto Nacional de Metrologia, Qualidade e Tecnologia, garantindo segurança aos consumidores.
54PSI: A indústria automotiva está passando por uma revolução tecnológica, com a eletrificação e os veículos inteligentes ganhando força. Como a indústria de pneus no Brasil está se preparando para atender essas novas demandas? A Anip pretende fomentar algum tipo de política de incentivo à inovação no setor?
A indústria de pneumáticos no Brasil tem um forte compromisso com a inovação e a tecnologia. Atualmente, o setor conta com 16 laboratórios de pesquisa e desenvolvimento, além de 3 pistas de testes, onde são realizadas avaliações rigorosas de desempenho.
Esses investimentos têm possibilitado o desenvolvimento contínuo de soluções que visam, entre outros objetivos, a redução do consumo de combustível dos veículos, o monitoramento do desgaste dos pneus e a adoção de materiais alternativos e ambientalmente responsáveis.
Um exemplo concreto desse avanço são os chamados pneus inteligentes, que já incorporam sensores para monitoramento em tempo real de parâmetros como pressão, temperatura e desgaste, promovendo maior segurança e eficiência.
Além disso, as empresas têm utilizado compostos sustentáveis na fabricação dos pneus, produtos obtidos da beterraba, óleo de soja, derivados de casca de arroz e fios de poliéster reciclados de garrafas PET, substituindo produtos minerais e derivados de petróleo.
Essas iniciativas demonstram o alinhamento da indústria nacional com as práticas globais de sustentabilidade e com as exigências de um mercado cada vez mais atento à responsabilidade socioambiental.
54PSI: Um tema sensível é o pedido de manutenção feito pela Anip da tarifa de importação de 25% para pneus de passeio importados por mais um ano. Ele afeta em maior escala os pneus de veículos mais populares – com aros 14 e 15 polegadas, medidas que a indústria nacional praticamente deixou de fabricar para focar sua atenção em medidas maiores, que são as mais lucrativas. Como o senhor justifica essa posição perante os consumidores e o mercado?
A entrada indiscriminada de pneus importados, especialmente da Ásia, tem afetado duramente a indústria instalada no país, ameaçando empregos e investimentos no mercado local.
Não somos contra as importações. Mas é preciso estabelecer regras. Não podemos admitir que pneus entrem no país com preços abaixo do custo de produção industrial, o que acontece em muitos casos. Além disso, dados do CONAMA mostram que as metas de reciclagem de pneus não são atingidas por muitos importadores.
A indústria de pneus instalada no País conta com 21 fábricas em sete estados. Os 11 maiores fabricantes operam no Brasil e produzem aqui pneus de alta qualidade e totalmente adaptados às condições das ruas e estradas brasileiras.
O setor gera 32 mil empregos diretos e mais de 500 mil indiretos em toda a cadeia de produção, que inclui borracha, químicos, têxteis e aço. Tudo isso segue ameaçado por produtos importados muitas vezes de forma desleal, criando risco de desindustrialização.
A medida de elevação do imposto de importação definida pela Camex (Câmara de Comércio Exterior) para 25% é um instrumento legítimo de proteção da indústria nacional. Ressalte-se que mesmo com este índice, as importações cresceram 22% em 2024.
Levamos décadas para construir uma indústria de pneus forte no país. Somos um país de modal predominantemente rodoviário. Sem pneus, o Brasil para. Hoje temos um parque industrial muito importante e uma cadeia de produção e de logística reversa organizada no setor. Se o mundo sofrer com desabastecimento, como ocorreu na pandemia, nós conseguimos garantir o abastecimento.
54PSI: Quais são os seus principais objetivos à frente da Anip para os próximos dois anos? Podemos esperar uma atuação mais institucional, mais política ou mais técnica da entidade sob sua liderança?
Uma das minhas principais missões à frente da ANIP é colocar a associação em uma posição de maior protagonismo nas interações institucionais e governamentais. A parte técnica também é fundamental, dado que nossas associadas possuem know-how técnico internacional para contribuir em diversas discussões, tanto governamentais como junto a outros interlocutores.
Queremos consolidar diferentes dados que demonstrem melhor a realidade do setor e o ajudem a contar sua história, afinal não é possível se posicionar de maneira efetiva sem números. Buscaremos aprofundar as informações que estiverem ao alcance dos associados e não forem sensíveis a suas atividades, sempre de acordo com as respectivas regras de compliance.
Precisamos também dar um foco maior e falar sobre a Reciclanip, o terceiro maior programa de reciclagem do mundo, ainda mais em um ano de COP 30. É um orgulho ter um trabalho de logística reversa tão robusto, iniciado há mais de vinte anos, enquanto muitos segmentos ainda estão buscando aprimorar iniciativas desse tipo.
54PSI: Considerando que as exportações de pneus para os Estados Unidos representam uma fatia significativa da produção nacional — o equivalente à operação de uma fábrica de médio porte —, quais podem ser os impactos concretos dessa tarifa de 50% tanto para a manutenção de empregos e operações no Brasil quanto para o abastecimento e os preços no mercado consumidor norte-americano?
Os Estados Unidos são, sem dúvida, um dos principais destinos das exportações de pneus produzidos no Brasil. Esse mercado representa uma via essencial para o escoamento da produção nacional, especialmente diante das dificuldades enfrentadas internamente, como a concorrência muitas vezes desleal com produtos importados.
A eventual aplicação de uma tarifa de 50% teria impactos negativos significativos para ambos os mercados. No caso brasileiro, afetaria diretamente as empresas locais, em especial as que investiram em linhas de produção voltadas principalmente para atender à demanda dos Estados Unidos.
A medida pode gerar instabilidade, criando um ambiente de insegurança que tende a resultar em desabastecimento e aumento de preços no mercado norte-americano — consequências que prejudicam toda a cadeia produtiva e os consumidores.
Hoje, a indústria de pneumáticos no país reúne 11 fabricantes, com 21 unidades fabris distribuídas em sete estados. O setor é responsável por cerca de 32 mil empregos diretos e mais de 500 mil indiretos, sendo uma cadeia produtiva de grande relevância para a economia nacional.
Foto: Divulgação Anip