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Michelin cresce em pneus premium, mas receita recua 0,5%

A Michelin encerrou os nove primeiros meses de 2026 com receita de € 19,18 bilhões, uma redução de 0,5% em relação ao mesmo período de 2025. Embora o resultado reportado tenha ficado ligeiramente abaixo do registrado no ano anterior, a fabricante francesa apresentou crescimento de 1,0% a taxas de câmbio constantes, apoiado pela valorização de […]

por Mateus Taday em 20/10/2026 - Atualizado em 20/10/2026

A Michelin registrou receita de € 19,18 bilhões nos nove primeiros meses de 2026, queda nominal de 0,5%, mas crescimento de 1,0% a câmbio constante. A melhora da composição das vendas, sustentada pelos pneus premium e pela marca Michelin, ajudou a compensar menores volumes e impactos cambiais negativos. A divisão de materiais compostos cresceu 21,9%, principalmente devido às aquisições.

Nos pneus de carga, a receita caiu 3,7%, refletindo dificuldades especialmente na América do Norte. A América do Sul apresentou o contraste mais significativo: crescimento de 22% no mercado de reposição, impulsionado principalmente pelas importações de pneus de menor preço, e retração de 6% no equipamento original. A mineração permaneceu favorável, enquanto agricultura e correias transportadoras enfrentaram condições mais difíceis.

A fabricante manteve suas perspectivas para 2026, esperando crescimento do lucro operacional dos segmentos em bases comparáveis e fluxo de caixa livre superior a € 1,6 bilhão antes de aquisições. O conjunto dos resultados aponta para uma estratégia cada vez mais concentrada em produtos premium, serviços e materiais técnicos, em resposta à concorrência crescente no mercado tradicional de pneus.


A Michelin encerrou os nove primeiros meses de 2026 com receita de € 19,18 bilhões, uma redução de 0,5% em relação ao mesmo período de 2025. Embora o resultado reportado tenha ficado ligeiramente abaixo do registrado no ano anterior, a fabricante francesa apresentou crescimento de 1,0% a taxas de câmbio constantes, apoiado pela valorização de seu portfólio, pelo desempenho da marca Michelin no mercado de reposição e pela expansão de seus negócios de materiais compostos.

Os resultados divulgados em 20 de outubro mostram uma companhia que continua enfrentando dificuldades nos mercados de equipamento original, especialmente em pneus para automóveis e caminhões, enquanto amplia sua exposição a produtos premium, mineração, aplicações industriais e materiais de maior valor agregado.

Um dos aspectos mais relevantes do relatório é o contraste entre o desempenho dos diferentes mercados. Na América do Sul, por exemplo, a demanda de reposição de pneus de carga cresceu 22% nos nove primeiros meses do ano, enquanto o mercado de equipamento original recuou 6%. Entretanto, o crescimento da reposição foi impulsionado principalmente pelo avanço das importações de pneus de menor preço, o que não necessariamente se traduz em melhores condições comerciais para os fabricantes tradicionais.

Receita chega a € 19,18 bilhões, com efeito cambial negativo

A Michelin registrou receita consolidada de € 19,175 bilhões entre janeiro e setembro de 2026, ante € 19,275 bilhões no mesmo período de 2025. A redução nominal de € 100 milhões reflete principalmente a combinação de menores volumes e efeitos cambiais desfavoráveis, parcialmente compensados pela melhora da composição das vendas e pelas aquisições realizadas pelo grupo.

Segmento20252026Variação
Pneus de passeio e duas rodas€ 10,50 bi€ 10,40 bi-1,0%
Transporte€ 4,51 bi€ 4,34 bi-3,7%
Especialidades€ 3,32 bi€ 3,29 bi-0,9%
Polymer Composite Solutions€ 0,94 bi€ 1,15 bi+21,9%
Total do grupo€ 19,28 bi€ 19,18 bi-0,5%

O efeito dos volumes foi negativo em € 159 milhões, equivalente a uma redução de 0,8%. O principal fator foi a retração nas vendas para equipamento original, presente nos três grandes segmentos de pneus da fabricante.

Em sentido contrário, o efeito combinado de preços e composição das vendas acrescentou € 206 milhões à receita, contribuição positiva de 1,1%. A melhora foi sustentada principalmente pelo aumento das vendas de produtos de maior valor agregado, incluindo pneus de aro de 18 polegadas ou mais, além do desempenho da marca Michelin no mercado de reposição.

As variações cambiais retiraram € 300 milhões da receita consolidada, impacto negativo de 1,6%. Segundo a companhia, a desvalorização do dólar americano frente ao euro foi o principal fator, embora outras moedas, incluindo o yuan chinês e o real brasileiro, também tenham influenciado o resultado.

As mudanças no perímetro de consolidação acrescentaram € 179 milhões, ou 0,9%, sobretudo pelas aquisições realizadas no negócio de materiais compostos.

Terceiro trimestre mostra melhora comercial

Apesar da redução acumulada, a Michelin apresentou uma melhora no terceiro trimestre. A receita do grupo cresceu 2,2% a taxas de câmbio constantes e 0,8% quando também são eliminados os efeitos das mudanças no perímetro de consolidação.

A evolução sugere uma recuperação gradual das condições comerciais, embora a demanda permaneça desigual entre mercados e segmentos. A companhia atribui parte da melhora às vendas de produtos premium, aos reajustes de preços implementados e à recuperação de determinadas atividades de equipamento original na América do Norte.

Pneus premium sustentam o negócio de passeio

O segmento Consumer, que reúne pneus para automóveis, veículos comerciais leves, motocicletas e atividades relacionadas, registrou receita de € 10,40 bilhões, queda de 1,0% na comparação anual.

Embora a receita tenha diminuído, os volumes comercializados cresceram 0,5%. Esse desempenho foi favorecido pela reposição de pneus para automóveis e pelas atividades de duas rodas, que compensaram a redução das vendas para equipamento original e a retração de marcas posicionadas em segmentos de menor preço.

A Michelin destaca que sua principal marca manteve desempenho superior ao mercado de reposição, especialmente nas medidas de 18 polegadas ou mais, que representam uma parcela crescente dos veículos vendidos em mercados desenvolvidos.

Na Europa, as vendas para reposição foram apoiadas pelo desempenho da marca Michelin, apesar da concorrência crescente dos pneus importados de menor preço. Na América do Norte, a fabricante também registrou crescimento no terceiro trimestre, mesmo diante de um mercado que permanece pressionado.

Marca Michelin cresce 4% em setembro

Um dos indicadores divulgados pela fabricante é o crescimento de 4% nos volumes da marca Michelin no mercado de reposição até o final de setembro.

O desempenho reforça a estratégia de priorizar produtos premium, especialmente em aplicações nas quais diferenciação tecnológica, durabilidade e desempenho permitem sustentar preços superiores.

A companhia também destaca a recepção comercial do Michelin Primacy 5 Energy, lançado anteriormente em 2026, além da maior participação dos pneus de aro de 18 polegadas ou mais nas vendas.

Essa mudança de composição é particularmente importante porque permite compensar parcialmente a redução dos volumes em segmentos de menor valor agregado.

Equipamento original continua sob pressão

O cenário permanece mais difícil no fornecimento de pneus para fabricantes de veículos.

No acumulado até setembro, o mercado mundial de equipamento original para automóveis e veículos comerciais leves recuou 1%. A maior retração ocorreu na China, onde a demanda diminuiu 7%, enquanto a América do Norte registrou queda de 1% e a Europa permaneceu estável.

Na China, a Michelin afirma que o mercado doméstico continuou enfraquecido, mas destaca ganhos de participação entre fabricantes locais de veículos, principalmente nos segmentos elétrico e híbrido plug-in.

A fabricante também observa que a concorrência de veículos importados da Ásia continua pressionando a produção automotiva europeia.

Pneus de carga registram a maior queda de receita

O segmento Transportation, que reúne pneus de carga, transporte urbano e atividades relacionadas, apresentou receita de € 4,34 bilhões, uma redução de 3,7% em relação aos € 4,51 bilhões registrados no ano anterior.

Os volumes vendidos caíram 1,5%, principalmente em consequência da menor atividade no mercado de equipamento original ao longo dos primeiros nove meses do ano.

A fabricante aponta que a reposição demonstrou maior resistência, mas as condições comerciais continuam difíceis, sobretudo na América do Norte.

No terceiro trimestre, entretanto, a receita do segmento aumentou 1,7%, refletindo uma melhora nas vendas para equipamento original, especialmente com a recuperação das encomendas e da produção de caminhões pesados Classe 8 nos Estados Unidos.

América do Norte continua sendo o principal problema

O mercado norte-americano de reposição de pneus de carga apresentou retração de 11% nos nove primeiros meses de 2026.

Segundo a Michelin, parte dessa queda resulta da antecipação de importações ocorrida em 2025, quando distribuidores e importadores ampliaram estoques diante da expectativa de novas tarifas aduaneiras.

O enfraquecimento do transporte de cargas e as pressões sobre os custos operacionais das frotas também contribuíram para reduzir a demanda.

A Michelin destaca que o mercado permanece mais competitivo, com crescimento da participação de pneus de menor preço. Ao mesmo tempo, a empresa trabalha na renovação de seu portfólio e no fortalecimento dos contratos com distribuidores e frotas.

Europa registra expansão de 9% na reposição

Em contraste com a América do Norte, o mercado europeu de reposição de pneus de carga cresceu 9% entre janeiro e setembro.

O resultado foi sustentado pela demanda do transporte rodoviário e pelo aumento das importações, embora a Michelin observe desaceleração no terceiro trimestre, quando o crescimento ficou em 4%.

O mercado europeu de equipamento original também apresentou expansão de 4% no acumulado, apesar do enfraquecimento observado mais recentemente.

América do Sul cresce 22% em reposição de pneus de carga

A América do Sul apresenta um dos contrastes mais importantes do relatório da Michelin.

O mercado regional de reposição de pneus de carga cresceu 22% nos nove primeiros meses de 2026, resultado muito superior à expansão global de 1% registrada pela Michelin para os mercados de reposição de caminhões, excluindo a China.

Entretanto, a fabricante atribui esse crescimento principalmente à forte entrada de pneus importados de menor preço. O indicador reflete as entregas ao mercado, não necessariamente o consumo final das frotas nem as vendas específicas da Michelin.

O avanço também perdeu intensidade ao longo do ano. No terceiro trimestre, o crescimento regional desacelerou para 5%.

No Brasil, a Michelin aponta a incerteza econômica associada ao período eleitoral de outubro de 2026 e à reforma tributária como fatores que afetam o ambiente comercial.

A leitura dos dados sugere que a expansão dos volumes comercializados na região está ocorrendo em um cenário de competição intensa, com maior presença de produtos importados. Portanto, o crescimento de 22% não deve ser interpretado isoladamente como sinal de fortalecimento da produção regional.

Equipamento original cai 6% na região

No mercado de equipamento original, a situação é oposta.

A demanda sul-americana por pneus de carga destinados às montadoras recuou 6% nos primeiros nove meses do ano. No terceiro trimestre, houve recuperação de 4%, parcialmente associada a um programa público brasileiro de estímulo à renovação de frotas e de incentivo à produção local.

A Michelin ressalta, porém, que o ambiente comercial permanece pressionado pelo crescimento das importações de caminhões de menor preço e pela maior concorrência entre fabricantes.

Outro ponto importante é o desempenho dos serviços conectados da Michelin. Embora essas atividades tenham apresentado retração global no período, a fabricante afirma que o crescimento permanece forte na América do Sul.

O dado indica que a região continua oferecendo oportunidades comerciais em soluções de monitoramento, manutenção e gestão de pneus, mesmo diante da concorrência intensa no fornecimento de produtos novos.

Mineração sustenta segmento de especialidades

O segmento Specialties, que reúne pneus para mineração, agricultura, construção, movimentação de materiais, defesa e aviação, registrou receita de € 3,29 bilhões, redução de 0,9% na comparação anual.

Desconsiderando a venda do negócio de pneus e esteiras para equipamentos compactos de construção realizada em 2025, o segmento apresentou crescimento de 0,4%.

A principal contribuição positiva veio da mineração, atividade que continua sustentada pela demanda de extração mineral e pelos investimentos das operadoras.

A Michelin informa que os pneus de mineração continuaram ganhando participação de mercado em diversas regiões, com desempenho particularmente favorável em pneus de grandes dimensões e aplicações subterrâneas.

Agricultura continua pressionada

Nos pneus agrícolas, a demanda de equipamento original permanece enfraquecida tanto na Europa quanto na América do Norte.

A fabricante associa essa situação à renda reduzida dos produtores agrícolas, ao aumento dos custos de fertilizantes, aos estoques de máquinas ainda elevados e à menor disposição para investimentos em equipamentos novos.

O mercado de reposição agrícola apresenta condições um pouco melhores, embora continue pressionado pela concorrência dos pneus importados de menor preço.

Em infraestrutura, a Michelin destaca o desempenho de produtos para equipamentos de construção, incluindo o Michelin X-Crane 2 e a linha Michelin XHA3.

A companhia também registra condições mais favoráveis nas aplicações de defesa e movimentação de materiais, enquanto os pneus de aviação continuam beneficiados pelo crescimento do tráfego aéreo e pela demanda por novas aeronaves.

Materiais compostos crescem 21,9%

O maior crescimento de receita ocorreu fora do negócio tradicional de pneus.

A divisão Polymer Composite Solutions alcançou € 1,15 bilhão nos nove primeiros meses de 2026, avanço de 21,9% em relação aos € 942 milhões registrados no período equivalente de 2025.

A expansão foi impulsionada principalmente pelas aquisições das empresas Cooley Group, Flexitallic e TexTech, que ampliaram a presença da Michelin em materiais técnicos para aplicações industriais, aeroespaciais, energéticas e de transporte.

Entretanto, o crescimento reportado não deve ser confundido com expansão orgânica. Excluindo os efeitos das mudanças no perímetro de consolidação, a receita da divisão recuou 2,7%.

A fabricante explica que os negócios de revestimentos, tecidos técnicos e sistemas de vedação apresentaram crescimento, mas esse avanço foi compensado pelo desempenho negativo das correias transportadoras.

Correias transportadoras sofrem com mineração australiana

A atividade de correias transportadoras, identificada pela Michelin como Conveyors, permanece pressionada principalmente pela cautela dos clientes de mineração e pela demanda enfraquecida nos mercados de minério de ferro e carvão.

A situação é particularmente desafiadora na Austrália, onde os projetos de mineração enfrentam condições menos favoráveis.

Apesar disso, a Michelin observa melhora gradual nas encomendas durante o terceiro trimestre, embora essa evolução ainda não tenha sido suficiente para reverter a retração acumulada.

A expansão em materiais compostos faz parte da estratégia Michelin in Motion 2030, que prevê ampliar a participação de negócios tecnológicos e industriais além da fabricação convencional de pneus.

Michelin mantém projeções para 2026

A Michelin confirmou suas perspectivas financeiras para o encerramento de 2026, apesar das dificuldades enfrentadas em diversos mercados.

A companhia espera que o lucro operacional dos segmentos cresça em relação a 2025, considerando taxas de câmbio e perímetro de consolidação constantes.

Também mantém a previsão de gerar fluxo de caixa livre superior a € 1,6 bilhão antes de operações de fusões e aquisições.

O comunicado de nove meses não apresenta uma atualização do lucro operacional ou do lucro líquido. Esses resultados não podem, portanto, ser calculados diretamente a partir da evolução da receita divulgada.

Estratégia continua apoiada em tecnologia e materiais

Além dos resultados comerciais, a Michelin destacou iniciativas relacionadas à transformação de seus materiais e processos industriais.

Entre elas está a apresentação de um protótipo de pneu com 70% de materiais renováveis e reciclados, demonstrado durante a IAA Transportation, além de uma solução automatizada para ressulcagem de pneus de carga.

A fabricante também mencionou a inauguração da Biotech Open Platform, em Clermont-Ferrand, desenvolvida com parceiros para acelerar a industrialização de processos biotecnológicos. A primeira etapa da plataforma recebeu mais de € 20 milhões em investimentos.

Essas iniciativas já haviam sido anunciadas anteriormente e aparecem no comunicado como parte do avanço da estratégia tecnológica da companhia, não como lançamentos realizados em outubro.

Resultados revelam mudança na composição dos negócios

Os nove primeiros meses de 2026 mostram uma Michelin com desempenho bastante desigual entre suas diferentes atividades.

No negócio tradicional de pneus, a recuperação das vendas da marca Michelin e a maior participação de produtos premium ajudam a compensar a redução dos volumes de equipamento original e o avanço da concorrência de menor preço.

Na divisão de transporte, a recuperação parcial do terceiro trimestre ainda não elimina os efeitos da retração acumulada, principalmente na América do Norte. Na mineração, a companhia mantém condições comerciais mais favoráveis, enquanto os pneus agrícolas continuam expostos ao ciclo de investimentos das fabricantes de máquinas.

A expansão de 21,9% dos materiais compostos demonstra o impacto das aquisições na diversificação do grupo, mas o recuo orgânico de 2,7% também evidencia que essa atividade ainda enfrenta dificuldades em determinados mercados.

Para a América do Sul, os números reforçam uma distinção importante. O crescimento expressivo de 22% no mercado de reposição de pneus de carga ocorre simultaneamente à redução de 6% na demanda de equipamento original e ao avanço das importações de produtos de menor preço.

O principal desafio da Michelin será continuar aumentando a participação dos produtos e serviços de maior valor agregado em mercados nos quais o volume comercializado não necessariamente acompanha a rentabilidade.

A melhora do terceiro trimestre e a manutenção das projeções financeiras indicam confiança da administração na estratégia atual. Entretanto, a evolução da demanda por equipamento original, a concorrência dos pneus importados e a capacidade de sustentar a composição favorável das vendas continuarão sendo fatores determinantes para o resultado anual.

Imagem: Michelin.

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