Coluna do Quadrelli: Não se deve fazer rodízio em “X”?
O 54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder. José Carlos Quadrelli: José Carlos Quadrelli: Não só pode como deve ser feito. Vamos entender por quê. Primeiramente: para que serve o rodízio de pneus num automóvel? Ele busca manter os desgastes dos pneus uniformes entre si já que os pneus dianteiros tendem a se desgastar até […]
por José Carlos Quadrelli em 10/09/2025 - Atualizado em 03/11/2025
O 54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder.
José Carlos Quadrelli: José Carlos Quadrelli: Não só pode como deve ser feito. Vamos entender por quê.
Primeiramente: para que serve o rodízio de pneus num automóvel? Ele busca manter os desgastes dos pneus uniformes entre si já que os pneus dianteiros tendem a se desgastar até 4 vezes mais rapidamente que os pneus traseiros (mesmo em veículos de tração traseira), o que ocorre devido aos efeitos da mudança de direção em curvas, maior peso no eixo dianteiro (na rodagem normal e na frenagem quando há transferência de peso para a dianteira), e mais ainda em veículos de tração dianteira, sistema adotado na maioria dos veículos de passeio atualmente. Com isso o comportamento dinâmico de todos os pneus será o mais uniforme possível, otimizando a estabilidade, dirigibilidade e frenagem do veículo, especialmente em piso molhado. Além disso, tende a compensar, pelo menos em parte, eventuais desgastes irregulares dos pneus que possam ter ocorrido por desalinhamento das rodas e impactos.
A não realização do rodízio fará com que os pneus dianteiros se desgastem mais rapidamente e necessitem de troca antes dos traseiros. Com isso os desgastes dos pneus entre os 2 eixos ficarão sempre desemparelhados, desequilibrando o comportamento dinâmico do conjunto.
Entendido isso, a questão que surge em seguida é: como deve ser realizado? Normalmente recomenda-se seguir as orientações do fabricante do veículo exposta no manual do proprietário. Entretanto, existem alguns fabricantes que não recomendam o rodízio (como a BMW, Renault e Volvo, por exemplo) e outros que não fornecem qualquer informação a respeito. Nesses casos deve-se recorrer às orientações fornecidas pelos fabricantes de pneus ou de entidades normativas como a ALAPA (Associação Latino-Americana de Pneus e Aros).
Como regra geral, estas fontes recomendam que o rodízio seja efetuado a cada 8.000 ou 10.000 km para pneus radiais (e 5.000 km para pneus diagonais) e que os pneus do eixo dianteiro sejam passados para o eixo traseiro e vice-versa (logicamente quando as medidas dos pneus dos dois eixos são as mesmas). Esta troca deve ser efetuada, para pneus do tipo simétrico (a maioria) ou assimétrico (os que possuem lado de montagem) de maneira que um pneu que estava montado num eixo de tração passe para o outro eixo do mesmo lado do veículo e um pneu montado num eixo livre passe para o outro eixo no lado oposto (ou seja, em “X”).
Este processo garante que cada pneu passe por todas as posições do veículo ao longo de sua vida útil, o que tenderá a uniformizar seu desgaste de forma mais eficiente. E por que um pneu que rodou num eixo de tração pode ser passado para o outro eixo sem mudar de lado? É que os esforços a que um pneu é submetido num eixo motriz são mais uniformes do que aqueles recebidos por um pneu num eixo livre, o que tende a uniformizar o desgaste da banda de rodagem no primeiro caso. Já o pneu que roda num eixo livre terá maior tendência a desenvolver desgaste irregular e a troca de lado, que fará com que gire no sentido inverso, poderá compensar tais desgastes, pelo menos parcialmente.
Alguns fabricantes de pneus (como a Pirelli) não recomendam a inversão de sentido de rotação dos pneus, o que ocorre ao se fazer o rodízio cruzado ou em “X”, alegando que isso levaria a desgaste irregular e a uma fadiga maior das lonas da carcaça já que elas acabariam se acomodando numa posição ao girar sempre no mesmo sentido. Entretanto, isso não ocorre já que os pneus são submetidos a torques de sentido contrário toda vez que são freados. Entidades de pneus como a ALAPA e a TIA (Tire Industry Association dos EUA) em seus manuais, recomendam o rodízio em “X” (ou em “meio-X” como exposto acima) já que ele é importante para uniformizar os desgastes de todos os pneus.
Exceções: deve-se lembrar que, no caso de pneus unidirecionais (com sentido de giro), o rodízio em “X” não pode ser usado já que o sentido de giro deve ser mantido. Nesse caso, os pneus trocam de eixo no mesmo lado do veículo. Além disso, existem veículos, principalmente esportivos, que usam medidas diferentes nos dois eixos, o que só permite que se faça o rodízio passando os pneus de um lado para o outro no mesmo eixo.
Ilustração Continental Pneus

* Nascido em 20/11/57 em São Paulo-SP, formou-se em engenharia mecânica na Poli/USP em 1981 e obteve mestrado na mesma área pelo Universidade de Minnesota, nos EUA, em 1985. Trabalhou inicialmente na área de tubulações industriais pela Promon Engenharia e depois como sócio fundador da Frontenge Engenharia, empresa de consultoria em projeto industrial. Em 1994 foi contratado pela Bridgestone do Brasil onde exerceu os cargos de engenheiro de campo depois gerente e gerente geral de engenharia de vendas até 2020 quando se aposentou e hoje atua como consultor. É autor de 2 livros, um deles sobre pneus. É casado e tem uma filha.
O Pneu de Automóvel: Um Guia Básico
– As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do 54PSI –