Análise: Custos pressionam lucros de fabricantes asiáticas
Os balanços mais recentes das fabricantes asiáticas de pneus revelam um padrão que merece atenção: em diversas empresas, as vendas continuam crescendo, mas os lucros recuam em ritmo muito mais intenso. Sentury, Linglong, Triangle, Prinx Chengshan e Haian Rubber estão entre os exemplos mais claros, ao lado das indianas CEAT e JK Tyre. O movimento […]
por Mateus Taday em 31/08/2026 - Atualizado em 28/08/2026
Os balanços mais recentes das fabricantes asiáticas de pneus revelam um padrão que merece atenção: em diversas empresas, as vendas continuam crescendo, mas os lucros recuam em ritmo muito mais intenso. Sentury, Linglong, Triangle, Prinx Chengshan e Haian Rubber estão entre os exemplos mais claros, ao lado das indianas CEAT e JK Tyre.
O movimento não parece decorrer de uma retração generalizada da demanda. A Sentury vendeu 11,9% mais pneus no primeiro semestre, enquanto a Triangle ampliou as vendas em 8,5%. A Prinx Chengshan comercializou 14,8 milhões de unidades, crescimento de 4,4%, e a Linglong manteve volumes praticamente estáveis no segundo trimestre, mesmo elevando seus preços.
Os resultados, entretanto, seguiram na direção oposta. A receita da Linglong aumentou 7,8%, mas o lucro líquido atribuível aos acionistas despencou 88,1%. Excluídos os itens não recorrentes, o resultado caiu 99,3%, para apenas US$ 820 mil.
A Sentury aumentou a receita em 7,3%, para aproximadamente US$ 658 milhões, enquanto o lucro líquido recuou 37,5%, para US$ 62,5 milhões. A diferença entre a evolução da produção e a rentabilidade mostra que ocupar capacidade não foi suficiente para preservar as margens.
Na Triangle, a receita cresceu 6,4%, mas o lucro diminuiu 14,1%. A pressão acelerou no segundo trimestre, quando o faturamento avançou 3,2% e o resultado líquido caiu 46,8%.
A Prinx Chengshan apresentou receita de US$ 859 milhões, alta de 1,4%, mas o lucro atribuível aos acionistas recuou 18,5%, para US$ 61,3 milhões. O lucro bruto ainda cresceu 2,9%, indicando que parte da deterioração ocorreu abaixo dessa linha.
Insumos explicam apenas parte da queda
Na Linglong, o descompasso entre preços e matérias-primas aparece de forma clara. O preço médio por pneu no segundo trimestre aumentou 7,55% frente ao mesmo período de 2025. No mesmo intervalo, o custo combinado da borracha natural, borracha sintética, negro de fumo e cordonel de aço cresceu 10,59%.
Na comparação com o primeiro trimestre, a alta dessas quatro matérias-primas chegou a 15,07%. A fabricante conseguiu aplicar reajustes, mas não com velocidade suficiente para neutralizar a inflação dos insumos.
O câmbio produziu impacto ainda maior. As despesas financeiras da Linglong alcançaram aproximadamente US$ 71 milhões, após a companhia registrar receita financeira líquida de cerca de US$ 88 milhões no primeiro semestre de 2025. A deterioração superior a US$ 159 milhões foi o principal fator para a queda do lucro.
A Sentury apresentou dinâmica semelhante. A receita do negócio de pneus aumentou 7,5%, enquanto o custo correspondente avançou 14,5%. Com isso, a margem bruta caiu 4,92 pontos percentuais, para 19,55%. As despesas financeiras também aumentaram devido às perdas cambiais, fator relevante para uma empresa que obtém quase 93% de sua receita com exportações e operações internacionais.
Na Triangle, o preço médio dos pneus caiu 4,09% no segundo trimestre, enquanto o custo combinado das principais matérias-primas aumentou 10,31%. Frente aos três primeiros meses do ano, a alta dos insumos chegou a 13,36%, ampliando a diferença entre o valor recebido pelos produtos e o custo de fabricação.
A Haian Rubber também foi fortemente afetada pelo câmbio. A receita da fabricante de pneus gigantes OTR cresceu 3,5%, mas o lucro líquido caiu 46,1%, para aproximadamente US$ 27,4 milhões. A companhia passou de um ganho cambial de cerca de US$ 6,8 milhões para uma perda de US$ 6,1 milhões.
O avanço do negócio de gestão operacional de pneus em minas não evitou essa queda. A receita do serviço cresceu 26,2% e passou a representar 30,8% do faturamento da Haian, mas sua margem diminuiu 12,6 pontos percentuais. A empresa atribuiu a retração à menor movimentação em alguns projetos e aos custos iniciais dos pneus adquiridos para novos contratos.
Os resultados da Giti acrescentam uma nuance importante. A Giti Tire Corporation, companhia do grupo listada em Xangai, encerrou o semestre com receita de aproximadamente US$ 331 milhões, queda de 2,7%, enquanto o lucro atribuível aos acionistas cresceu 24,4%, para US$ 10,5 milhões.
O resultado acumulado, porém, esconde uma piora no segundo trimestre. O lucro da Giti caiu 29,9% no período, enquanto o preço médio dos pneus recuou 3,55% na comparação anual. O custo combinado das principais matérias-primas aumentou 3,4% e ficou 13,6% acima do primeiro trimestre. O lucro maior no semestre decorre principalmente da forte recuperação registrada nos três primeiros meses do ano, não da ausência de pressão sobre o negócio.
Na Índia, a deterioração foi ainda mais intensa. A receita da CEAT aumentou 22,4% no primeiro trimestre do atual exercício fiscal, mas o lucro líquido caiu 96,4%. Além das matérias-primas, a fabricante sofreu perdas cambiais relacionadas à dívida em dólares de uma subsidiária no Sri Lanka e custos iniciais de negócios adquiridos recentemente.
A JK Tyre apresentou crescimento de aproximadamente 2% na receita e de 25% nos volumes domésticos, mas o lucro líquido recuou 73%. Os custos dos materiais consumidos aumentaram cerca de 34%, refletindo a exposição da indústria indiana ao petróleo e seus derivados. A CRISIL Ratings estima que a margem operacional das seis maiores fabricantes do país caia de 14,2% para entre 11,5% e 12% no atual exercício fiscal.
As barreiras comerciais acrescentam outra camada de pressão. A Triangle passou a estar sujeita a uma margem antidumping de 59,77% nos Estados Unidos para pneus de passeio e comerciais leves exportados da China. A Nexen também registrou despesas extraordinárias relacionadas às medidas antidumping norte-americanas, apesar do crescimento da receita.
As tarifas ajudam a explicar a corrida por fábricas fora dos países de origem. Sentury no Marrocos, Triangle e General Science no Camboja, Linglong na Sérvia e diversas outras fabricantes no Sudeste Asiático buscam reduzir a exposição a barreiras comerciais, fretes e interrupções logísticas. Esses projetos, entretanto, exigem contratação, treinamento, certificações e aumento gradual da utilização da capacidade antes de gerar retornos consistentes.
Nem toda a Ásia segue o mesmo movimento
Seria incorreto interpretar os resultados como uma deterioração generalizada da indústria asiática. A General Science mais que dobrou o lucro no primeiro semestre, beneficiada pela plena utilização da fábrica do Camboja. A ZC Rubber ampliou o resultado em 5,1%, embora seus custos também tenham começado a crescer acima dos preços.
Entre as grandes fabricantes, a Hankook aumentou o lucro operacional da divisão de pneus em 39,5% e alcançou margem de 17,2%. A Yokohama Rubber ampliou o lucro operacional ajustado em 54,3%, enquanto a Bridgestone registrou avanço de 20% e elevou sua margem de 11,1% para 12,1%.
Os resultados ocidentais também foram, em geral, mais resistentes. O lucro operacional dos segmentos da Michelin cresceu 7% em bases comparáveis, a Pirelli aumentou o lucro líquido em 13,3%, a Continental elevou a margem ajustada do negócio de pneus para 15,3% no segundo trimestre e a Nokian apresentou forte recuperação da rentabilidade.
Essas empresas foram favorecidas por uma participação maior de produtos premium, melhoria do mix e efeitos ainda positivos de matérias-primas adquiridas anteriormente. Michelin, Continental e Nokian apontaram custos de materiais favoráveis no primeiro semestre, embora algumas já esperem uma reversão no restante do ano.
A principal exceção ocidental é a Goodyear. O lucro operacional dos segmentos caiu de US$ 354 milhões para US$ 131 milhões no semestre, enquanto as Américas passaram de US$ 296 milhões para US$ 27 milhões. Nesse caso, os principais impactos vieram dos menores volumes, inflação, tarifas, baixa utilização das fábricas e venda de negócios, mesmo com uma relação ainda favorável entre preço, mix e matérias-primas.
A comparação também exige cautela porque as empresas não destacam os mesmos indicadores. As quedas das chinesas citadas referem-se principalmente ao lucro líquido, mais sensível a câmbio, despesas financeiras e itens extraordinários. Michelin, Continental e Bridgestone costumam enfatizar resultados operacionais ajustados. Ainda assim, os dados de preços, custos e margens brutas confirmam que existe uma pressão operacional real em várias fabricantes chinesas e indianas.
Para a América Latina, o efeito pode ser contraditório. A inflação dos insumos e a queda das margens aumentam a necessidade de reajustes, mas as tarifas aplicadas nos Estados Unidos e na Europa podem levar fabricantes asiáticas a direcionar mais capacidade para mercados latino-americanos. A necessidade de ocupar fábricas novas também favorece estratégias comerciais agressivas, mesmo com menor rentabilidade por pneu.
Os balanços mostram, portanto, que o principal desafio de parte da indústria asiática não está em vender pneus. Está em transformar o crescimento dos volumes e das receitas em lucro num ambiente em que matérias-primas, câmbio, fretes, capacidade nova e barreiras comerciais avançam mais rapidamente que os preços. A divisão entre empresas que conseguem defender o mix e aquelas que dependem de volume tende a ficar ainda mais visível no segundo semestre.