Por que os pneus se tornaram estratégicos na revisão do T-MEC na América do Norte
Para quem acompanha a indústria automotiva a partir da América do Sul, vale entender um ponto central do debate atual na América do Norte: dentro do T-MEC — acordo comercial entre México, Estados Unidos e Canadá — os pneus são classificados como autopeças essenciais, no mesmo nível de sistemas de freio ou escapamento. Isso significa […]
por Mateus Taday em 26/01/2026 - Atualizado em 22/01/2026
Para quem acompanha a indústria automotiva a partir da América do Sul, vale entender um ponto central do debate atual na América do Norte: dentro do T-MEC — acordo comercial entre México, Estados Unidos e Canadá — os pneus são classificados como autopeças essenciais, no mesmo nível de sistemas de freio ou escapamento. Isso significa que eles não são tratados como um item periférico, mas como um insumo crítico para segurança veicular, rastreabilidade e cumprimento das regras de origem.
Na prática, essa classificação torna os pneus estratégicos para que veículos produzidos no México atendam aos percentuais mínimos de conteúdo regional exigidos pelo acordo. Com a revisão do T-MEC no horizonte e o avanço do nearshoring — movimento que traz fábricas e fornecedores para mais perto do mercado norte-americano — cresce a pressão para que fornecedores de autopeças, incluindo fabricantes de pneus, estejam financeiramente sólidos e integrados às cadeias produtivas regionais.
Hoje, cerca de 40% das exportações manufatureiras mexicanas vêm do setor automotivo, que responde por aproximadamente 5% do PIB do país. Estados Unidos e Canadá absorvem quase 90% dessas exportações, o que ajuda a explicar por que qualquer ajuste nas regras do T-MEC tem impacto direto sobre a indústria local. Em 2024, o comércio total de partes e acessórios automotivos no México, somando importações e exportações, alcançou US$ 75,4 bilhões, segundo dados oficiais.
Pressão competitiva, financiamento e cadeia local
Esse cenário regulatório se soma a uma pressão competitiva crescente. Importações de pneus de origem asiática, com preços mais baixos, ganharam espaço no mercado norte-americano e mexicano, comprimindo margens e forçando fabricantes e distribuidores locais a rever estratégias de custo, logística, estoques e capital de giro.
Ao mesmo tempo, há um esforço claro para fortalecer a cadeia local de suprimentos, especialmente em regiões produtoras de borracha natural no México, como Veracruz, Tabasco e Chiapas. De acordo com a Cámara Nacional de la Industria Hulera, a meta é reduzir a dependência de insumos importados, elevar o conteúdo regional e atender às exigências das montadoras integradas ao T-MEC.
Segundo Paulina Aguilar, cofundadora e CRO da MUNDI, o financiamento passou a ser um fator habilitador da competitividade. Sem liquidez e capacidade de investimento, fornecedores de autopeças não conseguem cumprir regras de origem, padrões internacionais e prazos exigidos pelas cadeias automotivas da América do Norte.
Na mesma linha, Norma Monroy, diretora financeira da Multillantas y Servicios Grimaldi, destaca que pneus vão além da mobilidade: são componentes de segurança e de conformidade regulatória. Para as empresas do setor, o acesso oportuno a crédito e capital de trabalho pode definir quem se consolida como fornecedor estratégico no mercado norte-americano — e quem fica de fora dessa cadeia altamente integrada.
Fonte: Revista Magazzine.