Coluna do Quadrelli: Por que alguns pneus parecem estourar “do nada?”
54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder. José Carlos Quadrelli: Nada acontece sem uma causa, que às vezes é aparente e às vezes não. Vamos procurar entender o que acontece com esses pneus. É comum um revendedor de pneus receber uma reclamação de um cliente alegando que seu pneu estourou aparentemente sem motivo já que […]
por Mateus Taday em 10/03/2026 - Atualizado em 09/03/2026
54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder.
José Carlos Quadrelli: Nada acontece sem uma causa, que às vezes é aparente e às vezes não. Vamos procurar entender o que acontece com esses pneus.
É comum um revendedor de pneus receber uma reclamação de um cliente alegando que seu pneu estourou aparentemente sem motivo já que trafegava numa pista de ótima pavimentação, a uma velocidade compatível com o limite legal e não houve impacto do pneu em qualquer objeto ou buraco (ou seja: “do nada”). Portanto, ele conclui que a falha só pode ser devida a um defeito de fabricação e reivindica a troca do pneu em garantia.
Logicamente, não podemos descartar de imediato essa hipótese, mas somente uma análise mais detalhada do pneu e das informações de uso do veículo é que poderão determinar a causa efetiva do ocorrido. Entretanto, somente uma pequena porcentagem desses casos ocorre por defeitos de fabricação ou materiais dos pneus.
Ocorre que existem vários fatores que fazem com que o tempo e a quilometragem decorridos entre o impacto e a eventual falha do pneu possam variar muito, entre os quais:
- objeto impactante (tipo, tamanho e se é pontiagudo ou não): pode ser um prego, parafuso, pedaço de madeira ou metal, vidro, pedra, buraco, autopeça que caiu de outro veículo etc. Cada um deles tem uma geometria diferente e o pneu pode atingir o objeto de diversas maneiras;
- ângulo de impacto: o ângulo em que o pneu atinge o objeto pode fazer a diferença entre não causar dano algum ou ocasionar uma penetração na banda de rodagem ou na lateral do pneu;
- velocidade do veículo: quanto maior a velocidade, maior será o dano causado pelo impacto;
- carga e pressão de inflação do pneu: estes dois fatores atuam em conjunto já que a melhor condição é aquela em que a pressão de inflação está de acordo com a carga incidente sobre o pneu para que não haja nem excesso nem falta de pressão. Um pneu com sobrepressão estará mais sujeito a um estouro repentino do que um com baixa pressão se atingir um objeto pontiagudo, por exemplo, mas este último (da baixa pressão) pode se danificar na lateral mais facilmente e vir a falhar posteriormente.
Dependendo de todos estes fatores, o dano causado ao pneu no momento do impacto pode variar muito, desde um estouro repentino a um dano apenas superficial. Em alguns casos pode ocorrer uma penetração parcial na carcaça fazendo com que ocorra a entrada de sujeira e umidade ao longo do tempo, o que pode eventualmente levar a uma desagregação entre os componentes e à eventual falha do pneu. Assim, é possível rodar muito tempo, e muitos quilômetros, com o pneu e a falha vir a ocorrer muito tempo depois de um impacto que já nem lembramos mais (ou pode até ter ocorrido com outro condutor do mesmo veículo).
E um defeito de fabricação: pode levar a um estouro repentino? Eventualmente pode, mas esses casos são raros já que é normal que a grande maioria dos defeitos costumam aparecer no início da vida útil de um pneu gerando evidências visíveis antes de ocorrer um estouro.
Como exemplo podemos ter uma desagregação de lona ou cinta estabilizadora ocasionada por uma contaminação do material, ou eventual utilização de um material inapropriado, na fabricação. Uma falta de aderência pode ocasionar o atrito entre as peças e um aumento de temperatura que poderá levar à desagregação e ao eventual estouro. Entretanto, antes disso ocorrer é provável que surjam bolhas, deformações, desgastes irregulares ou ruídos estranhos que podem evidenciar o defeito.
Outra possibilidade é quando um corpo estranho, como um parafuso, prego, madeira ou plástico são vulcanizados dentro do pneu. Com o rodar do pneu, esse objeto pode danificar os componentes internos e levar a uma perda de ar repentina. Entretanto, tais casos são cada vez menos comuns devido aos cuidados tomados nas linhas de produção atuais que impedem a introdução de objetos estranhos.
Por tudo isso é que é importante sempre verificar a pressão de inflação (idealmente uma vez por semana), fazer pelo menos uma inspeção visual dos pneus nessas ocasiões e procurar um técnico credenciado para examinar os pneus após sofrer um impacto forte ou ao se detectar qualquer comportamento diferente deles. Assim se diminui muito a probabilidade de ocorrência de qualquer falha.

* Nascido em 20/11/57 em São Paulo-SP, formou-se em engenharia mecânica na Poli/USP em 1981 e obteve mestrado na mesma área pelo Universidade de Minnesota, nos EUA, em 1985. Trabalhou inicialmente na área de tubulações industriais pela Promon Engenharia e depois como sócio fundador da Frontenge Engenharia, empresa de consultoria em projeto industrial. Em 1994 foi contratado pela Bridgestone do Brasil onde exerceu os cargos de engenheiro de campo depois gerente e gerente geral de engenharia de vendas até 2020 quando se aposentou e hoje atua como consultor. É autor de 2 livros, um deles sobre pneus. É casado e tem uma filha.
O Pneu de Automóvel: Um Guia Básico
– As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do 54PSI –