O que são pneus inservíveis e como podem ser aproveitados?
54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder. José Carlos Quadrelli: São pneus que não têm mais condições de serem reformados ou reparados para que possam continuar rodando, pela extensão de seus danos ou por fadiga de sua carcaça, e, portanto, atingiram o fim de sua vida útil. Mesmo assim, o que sobrou ainda pode ser […]
por José Carlos Quadrelli em 14/05/2026 - Atualizado em 13/05/2026
54PSI convida José Carlos Quadrelli para responder.
José Carlos Quadrelli: São pneus que não têm mais condições de serem reformados ou reparados para que possam continuar rodando, pela extensão de seus danos ou por fadiga de sua carcaça, e, portanto, atingiram o fim de sua vida útil. Mesmo assim, o que sobrou ainda pode ser aproveitado de maneira ambientalmente correta, como veremos a seguir.
Até cerca de 25 anos atrás, os pneus inservíveis eram muitas vezes abandonados no “meio do mato”, o que acabou gerando um passivo ambiental imenso com a criação de verdadeiros depósitos a céu aberto de milhares de pneus. Com o avanço das doenças infecciosas como Dengue, Chikungunya e Zika vírus, esses depósitos passaram a chamar a atenção das autoridades ambientais já que eles constituíam enormes criadouros dos mosquitos transmissores dessas doenças devido à facilidade de acúmulo de água em seus interiores. Não se pode desprezar também o risco de incêndio inerente a esses depósitos, o que gera fumaça altamente tóxica. Além disso, muitos proprietários de pneus usados acabavam estocando os mesmos em casa para usos os mais diversos e muitas vezes por não ter onde descartá-los.
O CONAMA (Conselho Nacional do Meio Ambiente), subordinado ao Ministério do Meio Ambiente, passou a estudar esse assunto e em 1999 instituiu o Programa Nacional de Coleta e Destinação de Pneus Inservíveis com o intuito de obrigar os fabricantes e importadores de pneus a implementarem sistemas de logística reversa (retorno do produto do consumidor ao fabricante) para coletarem os pneus inservíveis e darem destinação ambientalmente correta a esses pneus, além de trabalharem para eliminar os passivos ambientais existentes.
Com isso, a partir de 2002 foram estabelecidas metas de coleta de pneus inservíveis com base nas quantidades produzidas ou importadas e ficava proibida a sua destinação inadequada, ou seja, dispor os mesmos em aterros sanitários, mar, rios, lagos, riachos, terrenos baldios ou alagadiços ou queimá-los a céu aberto.
A fim de atender a resolução, os fabricantes de pneus, através da Associação Nacional da Indústria do Pneumático (ANIP), estabeleceram parcerias com empresas de transporte e de destinação final dos pneus. Foram estabelecidos pontos de coleta dos pneus inservíveis, (existindo mais de 1050 atualmente), onde os pneus seriam coletados. Em 2007, a ANIP criou uma entidade própria para gerenciar esse programa: a RECICLANIP.
A destinação final dos pneus é efetuada em parceria com empresas aprovadas pelo IBAMA (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) e está basicamente dividida em duas grandes áreas:
1. Utilização dos pneus como combustível: queima controlada dos pneus como fonte de energia alternativa (no lugar do coque do petróleo) em fornos da indústria cimenteira uma vez que o pneu tem alto poder calorífico (cerca de 7700 kcal/kg, um pouco abaixo do carvão betuminoso) – responsável por cerca de 60 a 70% da destinação total;
2. Reciclagem dos materiais que compõem os pneus: nesta categoria, que abrange os 30 a 40% restantes, existem três processos básicos de aproveitamento:
- Recuperação da borracha –neste caso a borracha do pneu sofre um processo de “desvulcanização”, em que as ligações de enxofre com a borracha, formadas na vulcanização, são quebradas. Existem vários processos para isso, e que envolvem a aplicação de energia mecânica e térmica além de produtos químicos. O produto, a borracha reciclada, é misturada com a borracha natural virgem, numa porcentagem limitada, para se fabricar novos pneus;
- Trituração da borracha – aqui a borracha é triturada até virar um pó que pode ser utilizado para formar peças de borracha através de processos de extrusão que envolvam altas temperaturas e pressões. O pó também pode ser adicionado a asfalto ou concreto, o que confere aos mesmos maior durabilidade, resistência a rachaduras e redução de ruído, e é ainda usado em pisos industriais ou em quadras esportivas;
- Laminação da borracha – lâminas de borracha de pneus diagonais são cortadas para serem usadas na fabricação de solas de sapatos, tapetes, percintas para móveis, dutos de água, correias transportadoras etc.
Atualmente quem compra pneus de passeio ou caminhonete novos numa revenda de pneus pode deixar lá os pneus usados. A revenda encaminha estes pneus a empresas que fazem a sua triagem, separando os que ainda podem ser reformados e encaminhando os demais aos pontos de coleta mencionados.
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* Nascido em 20/11/57 em São Paulo-SP, formou-se em engenharia mecânica na Poli/USP em 1981 e obteve mestrado na mesma área pelo Universidade de Minnesota, nos EUA, em 1985. Trabalhou inicialmente na área de tubulações industriais pela Promon Engenharia e depois como sócio fundador da Frontenge Engenharia, empresa de consultoria em projeto industrial. Em 1994 foi contratado pela Bridgestone do Brasil onde exerceu os cargos de engenheiro de campo depois gerente e gerente geral de engenharia de vendas até 2020 quando se aposentou e hoje atua como consultor. É autor de 2 livros, um deles sobre pneus. É casado e tem uma filha.
O Pneu de Automóvel: Um Guia Básico
– As opiniões contidas nesta coluna não refletem necessariamente a opinião do 54PSI –