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EXCLUSIVO: Crise logística na Ásia leva frete marítimo a até US$ 9,5 mil e aumenta risco de desabastecimento de pneus no Brasil

A crise no transporte marítimo internacional ganhou um novo componente de preocupação para os importadores brasileiros. Depois de os fretes da China para o Brasil saltarem de patamares próximos de US$ 3 mil para mais de US$ 8 mil por contêiner de 40 pés, as cotações para embarques previstos entre 1º e 7 de setembro […]

por Lara Roibone em 25/08/2026 - Atualizado em 25/08/2026

A crise no transporte marítimo internacional ganhou um novo componente de preocupação para os importadores brasileiros. Depois de os fretes da China para o Brasil saltarem de patamares próximos de US$ 3 mil para mais de US$ 8 mil por contêiner de 40 pés, as cotações para embarques previstos entre 1º e 7 de setembro já oscilam entre US$ 8.500,00 e US$ 9.500,00 dependendo do armador, disponibilidade de espaço e equipamento e condições de negociação.

O novo cenário agrava uma situação que já vinha sendo acompanhada pela Associação Brasileira dos Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP). Em levantamento anterior, a entidade utilizava como referência frete de US$ 8.300,00 por contêiner, valor que agora já foi superado pelas cotações para o início de setembro.

Além da escalada dos preços, o problema passou a envolver a própria capacidade de embarcar mercadorias nos principais portos chineses. Informações de mercado recebidas neste domingo, 24 de agosto, indicam a previsão de três novos tufões com potencial de afetar as regiões portuárias de Shenzhen, Ningbo e Shanghai, importantes pontos de origem das exportações chinesas para o Brasil.

O quadro climático ocorre em um momento em que os principais portos chineses já enfrentam atrasos, omissões de escalas, falta de equipamentos e dificuldade dos armadores para disponibilizar navios suficientes para retirar os contêineres depositados nos terminais.

Segundo informações recebidas pela ABIDIP junto ao mercado de transporte internacional, o backlog acumulado nos principais portos chineses estaria na ordem de 400 mil TEUs.

A situação também começa a provocar alterações relevantes nas programações dos armadores. Entre as informações recebidas pelo setor, a HMM (Hyundai Merchant Marine) teria indicado que sua próxima operação em Shanghai ocorrerá somente em 22 de setembro, em razão de remanejamentos do serviço para atendimento de outros portos e recuperação de escalas atrasadas.

Para a ABIDIP, o cenário exige atenção porque a crise deixou de ser apenas uma questão de aumento do custo do transporte.

“Até algumas semanas atrás discutíamos principalmente o preço do frete. Agora, temos uma preocupação adicional: conseguir espaço e equipamento para embarcar. Quando se combinam fretes próximos de US$ 10 mil, congestionamento portuário, atrasos de navios e omissões de escalas, surge um risco concreto para a regularidade do abastecimento do mercado brasileiro”, afirma Ricardo Alípio, presidente da ABIDIP.

Setembro deverá ser um mês crítico para os importadores

A expectativa do setor é de que setembro seja marcado por forte restrição de espaço nos navios, especialmente nas rotas com origem na China.

Esse quadro tem impacto direto sobre os importadores brasileiros de pneus, que dependem de planejamento antecipado para garantir a reposição dos estoques destinados ao mercado nacional.

O problema é especialmente sensível porque os importadores representados pela ABIDIP atuam predominantemente no mercado de reposição, fornecendo pneus para consumidores, revendedores, frotistas, motoristas de aplicativo, transportadores urbanos e pequenos empreendedores.

A entidade alerta que a redução da oferta ou o aumento excessivo dos custos de importação poderá repercutir diretamente sobre os preços pagos pelo consumidor.

“Não estamos falando de um produto supérfluo. O pneu é um item obrigatório de segurança. Se aumentamos simultaneamente o custo logístico e as barreiras à importação, quem acaba pagando essa conta é o consumidor brasileiro. E, quando o pneu fica caro demais, aumenta o risco de o motorista postergar uma troca necessária e continuar circulando com pneus desgastados”, destaca Alípio.

Esse risco já havia sido apontado pela ABIDIP em seu levantamento sobre os efeitos combinados do aumento do frete e da tributação. No estudo, considerando ainda um frete de US$ 8.300,00 o pneu 185/60 R15 poderia passar de R$ 254,90 para R$ 331,97, caso a alíquota do Imposto de Importação alcançasse 35%, uma elevação estimada de 30,2%.

Com fretes agora podendo alcançar US$ 9.500,00, a pressão logística tornou-se ainda maior do que aquela considerada originalmente pela entidade.

ABIDIP alerta contra aumento do Imposto de Importação neste momento

A deterioração das condições logísticas internacionais ocorre justamente quando está em discussão uma nova elevação do Imposto de Importação sobre pneus de passeio, dos atuais 25%, para 35%.

Para a ABIDIP, adicionar uma nova barreira tarifária neste momento significaria impor um segundo choque de custos sobre um produto que já sofre os efeitos de uma crise logística internacional sobre a qual os importadores brasileiros não possuem qualquer controle.

“O Brasil não controla tufões, congestionamentos nos portos asiáticos ou a disponibilidade de navios. Mas controla sua política tarifária. Exatamente por isso, este não é o momento de acrescentar artificialmente mais dez pontos percentuais de Imposto de Importação a uma cadeia que já está sendo fortemente pressionada por fatores externos”, afirma Ricardo Alípio.

A entidade defende que eventuais questões relacionadas à defesa da indústria nacional sejam tratadas pelos instrumentos específicos de defesa comercial previstos na legislação, preservando-se a concorrência, a previsibilidade e o abastecimento do mercado brasileiro.

Para a ABIDIP, diante da atual conjuntura internacional, preservar diferentes fontes de fornecimento e condições efetivas de concorrência tornou-se também uma questão de segurança de abastecimento.

“Quando existe uma crise internacional de logística, reduzir alternativas de fornecimento é caminhar na direção contrária à segurança do mercado. O Brasil precisa preservar concorrência, diversidade de fornecedores e previsibilidade. A competitividade deve ser construída com produtividade, inovação e eficiência, e não simplesmente com o aumento de tarifas”, conclui Alípio.

Foto: Pixabay

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