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Ponte de Guaratuba vira referência ao integrar a logística reversa de pneus e ressocialização

A destinação de pneus inservíveis sempre foi um desafio ambiental no Brasil. De difícil decomposição, com alto potencial poluidor e associado à proliferação da dengue, esse resíduo figurou por décadas entre os principais passivos ambientais do país. Hoje, porém, esse cenário mudou e de forma estruturada. Mais do que reduzir impactos ambientais, o modelo brasileiro […]

por Lara Roibone em 10/04/2026 - Atualizado em 13/04/2026

A destinação de pneus inservíveis sempre foi um desafio ambiental no Brasil. De difícil decomposição, com alto potencial poluidor e associado à proliferação da dengue, esse resíduo figurou por décadas entre os principais passivos ambientais do país.

Hoje, porém, esse cenário mudou e de forma estruturada. Mais do que reduzir impactos ambientais, o modelo brasileiro passou a gerar benefícios simultâneos para a saúde pública, a economia, a infraestrutura e o sistema penitenciário.

A Política Nacional de Resíduos Sólidos (Lei nº 12.305/2010) estabeleceu as bases da responsabilidade compartilhada e da logística reversa. No setor, a Resolução CONAMA nº 416/2009 tornou obrigatória a coleta e destinação ambientalmente adequada de pneus inservíveis por fabricantes e importadores.

Na prática, o país estruturou uma política pública eficiente, com resultados consistentes. Dados do IBAMA indicam que, em 2024, o Brasil atingiu 94,92% da meta de destinação, com mais de 784 mil toneladas de pneus corretamente encaminhadas.

Asfalto-borracha reciclado e ressocialização: o caso da Ponte de Guaratuba

Um dos exemplos mais emblemáticos dessa cadeia é a nova Ponte de Guaratuba, no litoral do Paraná. A obra, que será inaugurada no próximo dia 29 de abril, combina grande porte com inovação sustentável ao utilizar asfalto-borracha produzido a partir de pneus reciclados.

O projeto reaproveita cerca de 23 mil pneus inservíveis, transformando um passivo ambiental em solução tecnológica para pavimentação. Com investimento superior a R$ 400 milhões, a ponte conecta os municípios de Matinhos e Guaratuba e está em fase final de pavimentação.

Na obra, é aplicado o Concreto Betuminoso Usinado a Quente (CBUQ) modificado com borracha, tecnologia que aumenta a durabilidade do pavimento, melhora a resistência a fissuras e reduz custos de manutenção. Aproximadamente 600 toneladas desse composto asfáltico especial estão sendo utilizadas.

Os pneus utilizados na nova Ponte de Guaratuba foram destinados por meio do programa Brasil Rodando Limpo. Nesse processo, a Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP) atua na organização da logística reversa, enquanto a Associação Brasileira das Empresas de Reciclagem de Pneus Inservíveis (ABRERPI) responde pela transformação do material em insumo produtivo.

E o modelo paranaense inclui ainda um componente social muito relevante: a utilização de mão de obra prisional no processamento dos pneus, sob coordenação da Polícia Penal. A iniciativa contribui para a ressocialização, permitindo a remição de pena (um dia a menos a cada três trabalhados) além de remuneração aos apenados.

É muito importante ressaltar que o processo brasileiro de logística reversa evidencia uma convergência rara entre políticas públicas: saúde, meio ambiente, sistema penitenciário e infraestrutura operando de forma integrada em uma solução escalável e economicamente viável.

Não se trata de projeto-piloto. O país já recicla milhões de pneus e acumula milhares de quilômetros de rodovias com essa tecnologia, com alto nível de cumprimento regulatório.

O desafio agora é institucional. Falta reconhecer essa cadeia como um ativo estratégico, ampliar sua escala e integrá-la de forma mais consistente às políticas de infraestrutura. A experiência brasileira comprova na prática que é possível transformar um passivo ambiental em vetor de desenvolvimento.

Por Ricardo Alípio da Costa, presidente executivo da Associação Brasileira de Importadores e Distribuidores de Pneus (ABIDIP)

– As opiniões contidas neste artigo não refletem necessariamente a opinião do 54PSI –

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