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Sindicato pede aos EUA ação ampla contra pneus importados

O United Steelworkers (USW) pediu ao governo dos Estados Unidos a abertura de uma investigação que pode resultar em novas restrições abrangentes às importações de pneus. Em carta enviada em 14 de setembro ao representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, o sindicato solicita uma investigação sob a Section 201 do Trade Act de 1974, alegando […]

por Mateus Taday em 15/09/2026 - Atualizado em 15/09/2026

O United Steelworkers (USW) pediu ao governo dos Estados Unidos a abertura de uma investigação que pode resultar em novas restrições abrangentes às importações de pneus. Em carta enviada em 14 de setembro ao representante comercial dos EUA, Jamieson Greer, o sindicato solicita uma investigação sob a Section 201 do Trade Act de 1974, alegando forte avanço dos produtos importados e perda de capacidade industrial no país.

A iniciativa tem alcance potencialmente maior que os processos antidumping e antissubsídios normalmente aplicados pelos Estados Unidos. O USW defende que uma eventual investigação inclua pneus de passeio e light truck (PVLT), caminhões e ônibus (TBR), fora de estrada (OTR) e até pneus aeronáuticos. Entre as possíveis respostas estão tarifas, controles de importação e outras medidas temporárias destinadas a recuperar a produção doméstica.

Importados ganham participação nos Estados Unidos

Segundo o USW, a produção de pneus nos Estados Unidos caiu aproximadamente 40% desde 2000. O sindicato afirma que nove fábricas fecharam, reduziram significativamente suas operações ou anunciaram encerramentos nos últimos dois anos, provocando ou prevendo a eliminação de mais de 7 mil empregos.

A lista reúne vários movimentos recentes da indústria norte-americana. A Goodyear negocia o fechamento de sua fábrica de Fayetteville, na Carolina do Norte, até o fim de 2027, afetando aproximadamente 1.700 trabalhadores. A Michelin encerrará gradualmente a fábrica da BFGoodrich em Tuscaloosa, no Alabama, até o final de 2028, com cerca de 1.200 empregados envolvidos.

A Bridgestone encerrou antecipadamente a produção de pneus de carga em LaVergne, no Tennessee, em julho de 2025. Já a Sumitomo Rubber fechou sua única fábrica de pneus nos Estados Unidos, em Tonawanda, Nova York, após ter investido anteriormente na ampliação da capacidade da unidade. Mais recentemente, a Titan anunciou o fechamento da fábrica de Jackson, no Tennessee, até o final de outubro de 2026.

Nos pneus de passeio e light truck, as importações norte-americanas cresceram 12,8% entre 2021 e 2025, passando de 189,8 milhões para 214 milhões de unidades, segundo os dados apresentados pelo sindicato. No mesmo período, os embarques estimados da produção doméstica recuaram 19,9%, de 116,6 milhões para 93,5 milhões. Com isso, a participação dos produtos importados no consumo avançou de 61,9% para 69,6%.

A mudança foi ainda mais acentuada nos pneus de carga. As importações aumentaram 20,8%, chegando a 21,2 milhões de unidades em 2025, enquanto os embarques domésticos recuaram 30,4%, para 7,9 milhões. A participação dos pneus importados nesse mercado passou de 60,7% em 2021 para 72,8% em 2025.

USW aponta transferência da produção para novos países

Um dos principais argumentos apresentados pelo USW é que as medidas comerciais direcionadas a países específicos não conseguiram impedir o avanço das importações. Os Estados Unidos já mantêm medidas antidumping ou compensatórias sobre diferentes categorias de pneus originários de países como China, Coreia do Sul, Taiwan, Tailândia, Vietnã e Índia.

Segundo o sindicato, a imposição dessas barreiras contribuiu para deslocar parte da produção para países ainda não abrangidos pelas medidas. O documento aponta fortes aumentos das importações provenientes de mercados como Sérvia, Camboja e Peru e afirma que, em determinados casos, o crescimento chegou a 429%.

O USW também chama atenção para a expansão internacional das fabricantes chinesas. De acordo com o levantamento apresentado ao governo norte-americano, grupos chineses abriram 17 fábricas de pneus em sete países desde 2013, incluindo Camboja, Indonésia, Malásia, Marrocos, Sérvia, Tailândia e Vietnã.

A China ocupa posição central na argumentação. O sindicato estima que a capacidade instalada chinesa já supera 1 bilhão de pneus por ano. A preocupação do USW é que a expansão internacional das fabricantes permita que parte dessa capacidade passe a abastecer os Estados Unidos a partir de novos países de origem, reduzindo a eficácia de medidas comerciais direcionadas exclusivamente à China.

O segmento OTR também foi incluído no pedido apesar de as importações terem recuado 8,6% entre 2021 e 2025. O sindicato argumenta que a produção norte-americana diminuiu ainda mais rapidamente e destaca que as importações voltaram a crescer 11,4% no primeiro semestre de 2026. O cenário ocorre enquanto fabricantes reorganizam sua capacidade industrial: a Titan, por exemplo, está consolidando sua estrutura produtiva nos Estados Unidos.

O pedido alcança ainda os pneus aeronáuticos. Segundo o USW, as importações desse segmento cresceram 20,5% no primeiro semestre de 2026. O sindicato afirma que restam apenas três fábricas desse tipo de pneu no país e relaciona a manutenção da capacidade produtiva a questões de segurança econômica e nacional.

A Section 201 é diferente de uma investigação antidumping tradicional porque não exige comprovar que determinado país ou fabricante pratica dumping ou recebe subsídios ilegais. O mecanismo permite investigar se um aumento das importações causa, ou ameaça causar, dano grave à indústria doméstica. Em caso de determinação positiva, a U.S. International Trade Commission pode recomendar medidas de proteção, incluindo tarifas e restrições quantitativas às importações.

Por enquanto, nenhuma nova tarifa ou limitação foi estabelecida. O pedido apresentado em 14 de setembro busca convencer o USTR a iniciar o processo. Caso a investigação avance, porém, seu alcance poderá ser significativamente maior que o das atuais medidas direcionadas a países específicos, com potenciais efeitos sobre fabricantes de diferentes regiões que utilizam suas operações internacionais para abastecer o mercado norte-americano.